Silvio Rhatto é desenvolvedor de programas de software livre e de código aberto há mais de duas décadas. Sem formação específica na área, sua trajetória se inicia como aprendiz e autodidata. No começo dos anos 2000, passou a compor grupos de afinidade e coletivos que fomentaram o uso de software livre. Seu trabalho, como ele mesmo diz, já começa ao lado dos movimentos sociais, numa perspectiva faça-você-mesmo e altermundista. Ao lidar com a precariedade de ferramentas que existiam na internet naquele momento, passa a desenvolver software de acordo com a demanda dos movimentos. Silvio, contudo, reconhece seus privilégios: tinha tempo para aprender, se dedicar e, principalmente, dispunha de acesso ao computador num período em que essa tecnologia ainda não havia alcançado um público mais amplo.
Nessa entrevista, Silvio fala sobre desenvolvimento e movimentos de tecnologia, contextos políticos, necessidades emergentes das organizações, sustentabilidade de comunidades e o impacto do mercado e ideias para o futuro.
Em primeiro lugar, considero o software livre importante principalmente pela questão das liberdades e proteções coletivas, como por exemplo, no cuidado com a privacidade e a segurança.
A experiência que vivi no Brasil sempre esteve relacionada com uma perspectiva de movimento, de fazer coisas coletivas, mas existem várias outras correntes, inclusive aquelas que são até bem liberais ou inseridas dentro da lógica do aparelho do Estado brasileiro e que vislumbram no software livre uma possibilidade para que o Brasil “avance” e se equipare tecnologicamente.
Crucial para a diferença entre o movimento de duas décadas atrás e o de agora foi o processo de ascensão de um governo de centro-esquerda social-democrata no Brasil dos anos 2000, que realizou um aparelhamento da máquina pública com uma base militante, incluindo aquela que trabalhava com software livre e que teria como responsabilidade a migração de sistemas e formatos de dados para alternativas abertas. Consequentemente, este processo acabou por desmobilizar a militância, que foi convertida em burocracia, ou seja, ocorre uma fuga de “força de trabalho militante” para dentro do governo. Isso impulsionou, por um lado, a adoção de software livre e formatos abertos na gestão pública, e o fortalecimento do Fórum de Software Livre, mas, por outro, redundou em desmobilização e falta de renovação de quadros no longo prazo.
Muitos grupos e movimentos que mantiveram essa estreita relação com o governo, na maioria das vezes de dependência, acabaram por se desestabilizar no momento de revés político, quando a concertação social-democrata foi para o ralo. Por isso, percebo que houve uma espécie de sumiço repentino dos movimentos, do software livre enquanto movimento. Não me refiro à Associação do Software Livre e às cooperativas de desenvolvimento, que prosseguiram, mas a um caldo geral que arrefeceu.
Não acho que isso foi causado apenas pelo processo político no Brasil, já que também houve um papel do mercado que remonta os tempos do clássico debate do open source versus free software. O mercado abocanhou, no mundo inteiro, essa ideia de open source e a retransformou no conceito de open core, sob o qual há um núcleo aberto de software que é desenvolvido em regime de crowdsourcing, contando com a contribuição de uma comunidade mundial, mas que em áreas estratégicas ainda opera na lógica do fechamento do código e da proteção da propriedade intelectual.
Exemplo imediato é o da empresa Google, detentora de algoritmos proprietários que são segredos industriais e ao mesmo tempo fomentadora daquilo que começou a se chamar de um “ecossistema” de software livre. Hoje existe uma gestão de ecossistema em escala global, onde muita coisa é desenvolvida em base aberta por uma questão meramente pragmática e não por princípios. Por exemplo, a gestão que prega a resolução de problemas comuns pela formação de comunidades de interesse, a partir dos problemas que todo mundo tem, e pela busca de soluções que sejam o máximo possível baseadas em software livre. No entanto, produzir um núcleo aberto se tornou uma pragmática do tipo “vejamos, tem gente interessada em trabalhar nisso, assim economizaremos em investimento, teremos testes grátis, apoio comunitário e não remunerado. Eventualmente até terceirizamos tudo pra comunidade, pagando algumas figuras chaves para manter a base do código”. Consequentemente, quem controla o desenvolvimento dos grandes softwares livres, digamos assim, os softwares livres que são de missão crítica, como o kernel do Linux e outros, são as grandes empresas, porque elas conseguem pagar mais pelo desenvolvimento. Aquilo que era desenvolvido comunitariamente passa a ser gerido pela lógica empresarial, mas mantendo-se a aparência de comunidade.
Então a gente começa a perceber a diferença entre o software livre e o código aberto. Enquanto produto, eles são a mesma coisa e as licenças são compatíveis, mas enquanto processo são coisas completamente diferentes. Enquanto princípios são coisas completamente diferentes. Assim é possível que exista software desenvolvido de forma autoritária, mas cujo produto é aberto; ou um software cuja comunidade é influenciada por empresas que pagam desenvolvedores e desenvolvedoras em postos-chaves, direcionando para onde irão os esforços. Cito novamente código do kernel do Linux como exemplo, cujas versões recentes não mais funcionarão em computadores muito antigos, seguindo assim a lógica extremamente tecno-tóxica da obsolescência.
Creio que no Brasil sentimos esse duplo aparelhamento: do governo e das grandes empresas, que se apropriaram da comunidade e a cooptaram. Enquanto parte da comunidade precisa de emprego, parte foi assimilada no plano ideológico, produzindo assim um descolamento da comunidade de software livre em relação aos movimentos sociais.
Na contra-corrente dessas duas tendências, havia uma discussão quando se pensava em tecnologia e movimentos sociais: se o mais importante seria trazer pessoas que já eram da tecnologia para trabalhar com movimentos ou se o mais interessante seria formar tecnologistas que já eram militantes. E a partir de um determinado momento o foco de alguns grupos de software livre foi formar (pessoas) dentro da militância. A partir desse momento já não prestei tanta atenção na comunidade de software livre no geral, talvez já como resposta ao descenso do Movimento do Software Livre. Nisto reside a minha atual dificuldade de entender melhor no que este movimento se transformou e o quanto ele permanece como movimento, pois passei a me ocupar mais com pessoas interessadas em resolver problemas políticos e sociais, independentemente se possuíam ou não conhecimento prévio para isso. Mais importantes que conhecimento e experiência acumulados são a atitude e a postura em relação a ambos. Ou seja, trata-se basicamente da lógica do faça-você-mesmo, que para mim é um princípio implícito no software livre e uma postura em relação ao conhecimento, ao desconhecimento, ao aprendizado e ao compartilhamento. Por isso comecei a focar em cada vez mais formações para dentro, para os grupos e movimentos. Hoje percebo que, se pensarmos numericamente e geracionalmente, temos muito mais pessoas desenvolvendo coisas em código aberto apesar de desconhecerem a história daquilo que fazem, não saberem de onde vem enquanto praticantes da programação e nem sempre adotarem uma postura crítica sobre o que fazem.
Também hoje a escrita de software ocorre numa outra escala, numa praça global de código aberto. Muito se perdeu no enorme crescimento dos últimos anos. Houve uma ruptura. Tal multitude de desenvolvimento pouco cresceu na esteira de coletivos, grupos e de comunidade de software livre, mas sim a partir da lógica de mercado e da lógica de inclusão digital via mercado de trabalho.
Hoje o panorama é muito diferente. A Associação de Software Livre perdeu bastante fôlego e o Fórum de Software Livre hoje tem dificuldades de acompanhar uma série de pautas importantes e fundamentais.
Mas também passamos a ver uma transição com o surgimento dos grupos coletivos e eventos ligados à privacidade, à segurança, à transparência e à análise de dados. De certa maneira o Movimento do Software Livre se reconfigurou nesses grupos, mesmo que sejam compostos por outras pessoas ou outra geração. Tomemos por exemplo a Cryptorave: ela bebe um pouco do Fórum de Software Livre mas, apesar de beber muito mais de outras experiências, faz viver o software livre dentro de si e consegue manter uma contundência política. Se fizessem hoje um Fórum de Software Livre, apareceria um público bem mais específico. Agora, em um evento como a Cryptorave onde se fala de tecnologia e de suas importantes implicações políticas, muita gente é atraída. O software livre está mais ou menos implícito nesses grupos e eventos de privacidade, tecnologia, transparência e ciência de dados. Esses eventos também já contam com uma participação de vários perfis: jornalistas, cientistas sociais… e ao mesmo tempo em que se abre mais o público, também se abre a possibilidade de participação em eventos que têm código de conduta: eles são mais inclusivos.
A Cryptorave por exemplo é um evento que não depende do financiamento público ou de alguma empresa, não estando amordaçada às lógicas do aparelhamento, sendo assim mais independente.
Mas estas iniciativas ainda me parecem muito pulverizadas, dificultando um diagnóstico mais geral. Talvez ainda não haja uma movimentação convergente com a potência para desenvolver softwares livres de uma maneira aberta, inclusiva e que resolva problemas comuns e difíceis.
Isso me lembra do lugar e momento de onde venho, na esteira do movimento altermundista dos anos 2000 e que tinha esse aspecto de convergência. Não se tratava de uma convergência total, mas existia uma convergência, e o movimento do software livre também parecia estar nessa mesma onda de confluir dos anos 2000, coincidindo com a chegada da internet.
A internet chega, une o que estava distante e afasta o que estava próximo. Ela cria esse efeito paradoxal entre o local e o global, permitindo a convergência de pessoas muito distantes e que começaram a trabalhar juntas. Então acho que parte dessa convergência tem a ver com isso, dentro de um contexto da internet sendo usada para aprofundar uma globalização extremamente perversa. A lógica dos movimentos da época era usar as próprias tecnologias dessa nova ordenação mundial para parar esse processo de exploração e fortalecer o de cooperação. Para isso, era fundamental reprogramar a tecnologia de acordo com várias éticas, inclusive a do software livre. Mas não sem reação de novas ordenações mundiais se impondo… vem o 11 de Setembro de 2001, vem a guerra ao terror, depois uma crise econômica mundial, a ascensão da nova extrema direita, seguida pela pandemia e uma série de outras catástrofes que criam processos de choque, varrendo ou tornando cada vez mais difícil realizar essas convergências. E aí, esse efeito da internet de mais afastar as pessoas do que unir fica ainda mais explícito com o espessamento das bolhas individuais, individualistas, individuantes dentro da perspectiva hiperliberal.
A pulverização e a multiplicação das bolhas dificultam o esboço do panorama do software livre, ainda mais para responder essa questão com uma certa pertinência. Mas a coisa está rolando, está se retransformando, a caravana segue mesmo com os cães estropiados e a gente não pode deixar de olhar esses processos sem entender os contextos políticos, e enfim, o que dava para fazer em cada momento. Então, acho que o software livre talvez tenha perdido a centralidade, mas eu acho que não perdeu a importância de modo algum.
Para mim a abertura do código é um pressuposto, assim como a segurança e a privacidade. É um pressuposto, é um começo, eu parto disso, eu parto do Software Livre. Partir do software livre é meu modo de agir. Também venho de uma outra trajetória que é o punk, e punk vem disso daí, do faça-você-mesmo, de fazer as suas coisas, de fazer e refazer a própria cultura; mas não de uma maneira endogâmica, que a gente fica só ali nas nossas coisinhas e tal. Mas sim receber, transformar, copiar, criar e disponibilizar; e fazer isso sempre que possível. Não só com o software. O software é uma das muitas produções que a gente consegue disponibilizar para qualquer pessoa e sem custo adicional uma vez que o produto esteja pronto, uma vez que sua produção esteja paga.
Existem as particularidades de cada pessoa, do que é preciso fazer para viver e se sustentar. Eu tenho primeiro uma necessidade de um ganha-pão, então preciso trabalhar, e quero trabalhar em um lugar que faça algum sentido. Como programador, para mim não faz sentido trabalhar num lugar onde o software não é aberto. Então se eu não tivesse outra possibilidade, se a única coisa que pudesse fazer agora, se o único emprego disponível fosse desenvolver software proprietário… bom, aí eu não teria escolha e não haveria o que discutir. Mas tendo essa escolha eu vou fazer essa opção pelo software livre.
Acho que por trás das liberdades básicas do software livre de rodar, estudar, distribuir e modificar, existe intenção. A gente tem problemas globais e locais seríssimos, temos uma questão da inexorabilidade do tempo, o nosso tempo de vida está passando… o que farei com o meu tempo? Posso fazer um software que resolva um problema específico, mas posso gastar um pouquinho a mais do meu tempo fazendo com que este software resolva um problema mais geral, e assim economizar um tempo coletivo. Imaginem essa entrevista, feita pela internet e com software livre… quanto tempo nós não precisamos gastar para ter essa conversação? Não precisamos desenvolver nada disso, exceto caso queiramos aprender como se faz…
O software livre para mim é um ponto de partida, mas não é o único. Há o princípio de privacidade e princípios tecnológicos que ainda estou descobrindo, mas que estão na linha do que Guilherme de Ockham, um dos pensadores da longa tradição contra a tirania, formula: “não proliferam entidades mais do que o necessário”. Isso aí depois será enunciado como a tal da Navalha de Ockham… Seguindo tal princípio, evitarei complicar as coisas mais do que eu preciso. Não quer dizer que eu sempre sei qual é a maneira mais simples, mas eu também não vou tentar complicar demais. Acho que isso é um princípio que combina muito com o software livre. É compatível com a recusa de que eu não quero uma vida em que eu tenha uma relação de servidão com a tecnologia, em que ora eu lido com essa técnica como servidor, ora como servo; nem que mantenha uma relação de fetiche ou feitiço com ela, que queira transformá-la sempre na solução vendável para problemas criados por outras soluções vendáveis, numa escalada infinita de dependência tecnológica e complexificação desnecessária.
Indo mais para o geral, para ver onde tenho inserido o software livre, tenho preocupações em duas chaves: como a gente sai do abismo desta sociedade torturante em que vivemos. Se existe uma técnica, se existe saída, isto é um grande problema. Hoje eu estou tentando lidar com essas questões. E o segundo ponto é a investigação de quais são as formas de bem viver que funcionam em diversas escalas. Então acho que eu estou mais entre essas duas coisas e o software livre está ali, implícito. Se faço uma pesquisa, se escrevo um software, quero disponibilizá-los. O software livre para mim se tornou como parte de um ethos, está mais internalizado como prática cotidiana do que como uma causa política que encampou no papel de militante desta área específica.
Acho que o primeiro desafio, e que talvez seja o mais importante, é o abismo muito grande que existe internamente e entre as organizações. Normalmente há uma classe laboral ou um grupo técnico que vai até a organização, ou a organização vai até o grupo técnico, numa relação como a água e o óleo. É uma convivência muito difícil, porque você não consegue criar algo que faça mesmo a diferença. Inexiste o debate da técnica tanto nas organizações indigenistas como socioambientais. A meu ver, não existe. Isso falo com contundência. Tem pessoas que discutem, estudam, mas não há debate, e acho que isso é empobrecedor. Profissionais que vão trabalhar nessa área chegam completamente enviesados, com cacoete de formação, estão embebidos no mercado, então chegam com vícios de mercado, lógicas produtivistas de mercado, metodologias do mercado, e com o pensamento único do mercado, “técnica é isso”, “tecnologia é isso”, “fazer tem um jeito certo e o jeito certo é este”, “só pode ter um jeito certo de fazer”. Fora isso, as organizações têm muitas demandas para abarcar… é muita encrenca para resolver.
Outro agravante é que o mercado de trabalho na área tecnológica anda extremamente aquecido, e as organizações não governamentais têm dificuldades de oferecer remunerações atrativas. As poucas pessoas que se disponibilizaram a colaborar podem facilmente se frustrar com a ausência do debate e seguir para a pesquisa na academia, no exterior ou mesmo migrar para a iniciativa privada.
Em termos conjunturais, acho que há uma série de marcos fortes que dificultaram ainda mais a existência desse debate e da convergência entre software livre, indigenismo e socioambientalismo por forçarem as organizações a operar cada vez mais na chave da urgência. Como por exemplo o novo Código Florestal. Lembro de uma colega dizer que a partir desse ponto começa uma avalanche de demandas. Então se a gente quiser colocar um marco aí, um ponto de inflexão, eu acho que a gente teve esse momento, assim como a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que também foi outro ponto de inflexão, porque depois disso dificilmente teremos uma demarcação de área contínua tão grande. E de lá pra cá as pressões só aumentaram.
Antes de toda essa virada, até podíamos dizer que as organizações estavam vacilando ao não discutir técnica, porque até aquele momento, por mais que a vida fosse uma correria, havia bastante condição para colocar isso na pauta, mas a meu ver as organizações não viam a importância de um debate sobre técnica. Tecnologia era só mais um bem de consumo, ou um item numa planilha de orçamento, uma necessidade de financiador, ou, enfim, um serviço que é simplesmente adquirido. Essa água das organizações se encontrava com o óleo dos profissionais que já chegavam enviesados. Então, no meu ponto de vista, houve um mau encontro, não um encontro das águas, mas uma mistura que não se misturou. E isso foi muito danoso, pois o tempo de relativa calmaria não foi bem aproveitado para criar uma infraestrutura comum que pudesse responder não só às demandas usuais como às urgências e emergências cada vez mais frequentes.
É importante discutir técnica não porque a gente é tecnófilo. Técnica está na base. Tecnologia entendida aqui como a maneira de se fazer algo, de pensar criticamente sobre essa fazeção, de considerar se a gente pode fazer de outras maneiras, quais seriam essas maneiras e quais são os efeitos do que a gente faz. Então a técnica tem várias dimensões, dimensões políticas, dimensões éticas, mas principalmente um entendimento de que o que as populações tradicionais fazem é extremamente tecnológico, sem reforçar essa concepção equivocada de que existem sociedades sem história, sem técnica. Que história é essa? Acho que dá para discutir como a gente constroi o nosso desenvolvimento tecnológico, que não seja a partir dessa palavra “desenvolvimento”, que não seja com essa palavra “técnica”, mas pelo encontro e pela mistura. Trabalhei por dez anos com uma organização socioambiental e, como desenvolvedor, nunca conversei com povos tradicionais diretamente pra entender como poderia melhorar meu desenvolvimento, e como eu poderia incidir melhor. As condições para que essa conversa existisse nunca foram criadas.
Fiz alguns softwares livres para essa organização e sempre insisti também para a abertura dos dados necessários para rodá-lo, já que às vezes o acesso ao código fonte é só um pequeno pedaço da história. Então outro desafio é este, a abertura dos dados, que também depende de uma série de processos e cuidados para garantir que estejam disponíveis, atualizados, checados e salvaguardados no longo prazo.
Outro desafio enorme é enfrentar a obsolescência, tanto dos softwares desenvolvidos nas e pelas organizações, como também de suas integrações com aqueles desenvolvidos externamente.
É um equívoco achar que a produção de um software envolve apenas um custo inicial e que, depois da implantação, ele funcionará indefinidamente. Há uma grande dificuldade de se conseguir financiamento para a manutenção de softwares existentes, pois há uma tendência maior de financiar a novidade, o software que ainda não existe.
Um software que esteja sem cuidados tende a sofrer aquilo que chamamos de bit rot, o “apodrecimento” dos bits daquele software.
Um software é um número, representável por uma sequência de bits. Então, trocando em miúdos, programar é uma atividade que produz números. O trabalho de quem desenvolve o software é basicamente criar um número. Aquele número só tem a eficácia almejada se ele passar por um sistema que interprete o número de uma maneira que produza efeitos esperados. Se esses sistemas mudam, por exemplo ao longo do tempo com atualizações do sistema, aquele número que a gente produziu pode já não ser um número que desempenhe os efeitos esperados. Então, se mudar a tecnologia necessária para que aquele software rode efetivamente, isto é, se a tecnologia se tornar incompatível com aquele software, então aquele software de certa maneira apodreceu.
Mas não foi o software que apodreceu. De certa maneira foi um apodrecimento do mundo que não suporta mais dar eficácia àquele número, que não tem mais o cuidado de que aquele objeto técnico e imaterial já não é compatível com o curso do mundo… um mundo onde a regra é a inovação constante que produza a “disrupção” e a obsolescência, processos intimamente associados com a extração de recursos e diminuição da diversidade nos territórios. Do ponto de vista do resto do mundo, foi o software que “apodreceu”, mas na perspectiva do software, foi o mundo que se estragou…
Tenho trabalhado num conceito para expressar esse processo. O que chamam por aí de Antropoceno, Capitaloceno, ou mesmo Plantationoceno, tenho chamado nas minhas pesquisas como Apodreceno, esse processo de obsolescência total. Presenciamos esses processos de extinção em massa e de desertificação, que também podem ser entendidos como processos de apodrecimento.
Por conta desses desafios, considero que o campo socioambiental tem sérias dificuldades para viabilizar soluções práticas nesta seara tecnológica, com algumas exceções. Existem exceções. A própria organização onde eu trabalhava tinha experiências tecnológicas de sucesso, apesar dos grandes desafios de sustentabilidade, dependendo de financiamento constante por estarem plugadas nessa grande máquina que é o chamado “mercado de projetos”, com ciclos de financiamento em geral muito mais curtos do que a temporalidade necessária para criar softwares efetivos, duráveis e que tenham mais condições de resistir ao apodrecimento operado pela obsolescência tendencial.
Olha, eu acho que a gente tem uma coisa fazendo uma propaganda automaticamente, que é o desastre ambiental que já está acontecendo, infelizmente. Acho que isso é uma coisa que motiva e movimenta as pessoas. É necessário criar e difundir mais narrativas que instiguem e convidem as pessoas a participarem neste processo. E é um processo que eu acho que pode ser muito gratificante para as pessoas que colaborarem. Para a criação dessa narrativa é preciso antes romper essas barreiras entre as organizações, entre financiadores e entre as pessoas mais da área técnica, digamos assim.
A escolha das narrativas é importante, porque a gente pode convidar comunidades para trabalharem com tecnologias mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, isso requer muito cuidado, especialmente com relação às contranarrativas que podem minar todo esse trabalho e que podem ser formuladas por quem lucra com a destruição.
Além das narrativas, é importante pensar como as comunidades podem ser fomentadas, sem cair no gerencialismo do open source mencionado anteriormente. E aí fomentar comunidade é pensar em projetos, trabalhos ou concepção de projetos que permitam incluir pessoas de diferentes contextos, diferentes condições, diferentes disponibilidades, diferentes expertises e caminhadas, trazendo isso para o concreto, sem ficar só no genérico e no abstrato. Concretamente, como é que a gente pode trazer essas pessoas para fazer tais coisas? Isso requer pensar em arquitetura de sistemas e de softwares, em implementações de hardwares abertos ou tecnologias sociais e em como essas coisas se interligam, assim como definir quais são os cronogramas comuns. A partir disso é possível fazer um planejamento que seja compatível com temporalidades mais abertas, mas que ao mesmo tempo tenha uma efetividade dentro das urgências do mundo. Nesse sentido eu acho que a gente tá falando de uma coisa nova, que não é só reutilizar o que existe hoje em termos de gestão de projetos e comunidades de produção de software. Acho que se a gente só pegar coisas que estão na prateleira a gente vai reproduzir um monte de coisa ruim e vai favorecer justamente outras narrativas.
Acho que aí tem bastante trabalho, diria que é da escala de uma década para isso ser feito. Não é uma coisa para o próximo ciclo de financiamento e acho que é preciso articular escalas de tempo-espaço, curto prazo, escala local, mas também coisas de longo prazo. Um grande desafio. Vejo acontecer? Ando numas semanas não muito otimistas, então não vejo acontecer. Mas isso varia de acordo com o nosso humor, e acho que independentemente disso acontecer ou não, o tempo será inexorável. Temos muita coisa a fazer e encarar esses desafios parece um bom uso do nosso curto tempo disponível.
Essa é uma pergunta doida, né, sobre o que é deixar de existir. Entendo que não é o software que desapareceu, nem foi para um desses museus de software que já existem por aí, mas entendo que estamos falando do desaparecimento da comunidade que leva um projeto adiante.
Às vezes as organizações até conseguem criar um projeto de software efetivo e que pode ser usado para além da própria organização, mas falham ao não conseguir criar uma massa crítica de pessoas que componha uma comunidade mínima. Se há esta comunidade, é mais fácil para que pessoas se encorajem a colaborar, pois a frequência de discussões e atualizações no software são sinais básicos de vitalidade. Existe toda uma arte de manter essa comunidade.
Evidentemente pode ser que o projeto se refira a um problema daquele momento e que deixe de ser um problema mais pra frente, deixe de ser um centro de interesse, e aí a coisa vai desmobilizando. Mas este não é o caso de muitos softwares da área socioambiental e que lidam com questões prioritárias…
Fazer software livre também é fazer comunidade. Há espaço e necessidade para papéis mais organizacionais, mas também há espaço para comunidades onde todas pessoas participantes programem e façam gestão. Importante é que haja cuidado com a gestão e com o fortalecimento da comunidade.
Em resumo, é necessário urgentemente trazer o campo socioambiental para discutir tecnologia. Ainda dá tempo!