Construindo comunidades, lutando contra infraestruturas predatórias e desenvolvendo programas de código aberto

Narrira Lemos de Souza

Introdução

Em 09 de setembro de 2022, o céu da cidade de São Paulo, no sudeste do Brasil, amanheceu encoberto por uma camada cinzenta diferente da costumeira, um odor queimado invadiu os lares dos que nessa cidade vivem. Há aproximadamente dois anos um evento similar fez o dia tornar-se noite nesta capital: as queimadas que aconteciam no Pantanal1, em 2020, tomaram os céus, diminuíram a visibilidade dos voos e criaram um cenário apocalíptico – numa situação já assustadora de um recente contexto pandêmico. Contudo, o céu de 09 de setembro de 2022 não é o mesmo2. Não foi o dia que se tornou noite, mas um acobertamento do maior crescimento de desmatamentos dos últimos quinze anos3 da área florestal da Amazônia Legal.

Sem apoio do aparelho do Estado para combater o desmatamento das áreas públicas da região, organizações não governamentais (ONGs) têm desenvolvido projetos4 para promover o fortalecimento das comunidades locais e indígenas, visando a proteção da floresta e de seus defensores. As ações também visam a promoção de estratégias de segurança de povos indígenas, considerados pela ONU como os melhores guardiões das florestas na América Latina e Caribe5. A necessidade de fomentar atividades paralelas, através do mapeamento e o georreferenciamento da região e da expulsão dos agentes predatórios e ilegais para a proteção das florestas na região, se dá pelo contínuo desmonte das organizações estatais responsáveis pela salvaguarda dessas áreas. Por outro lado, ações que visam aumentar a proteção dos guardiões das florestas também passam a ser uma necessidade, pois sem os órgãos estatais para apoiar as comunidades, uma escalada de violência foi notada nos últimos anos, como o aumento de 48% de violência contra indígenas na Amazônia Legal, de acordo com relatório de 2021 do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)6.

Além disso, ferramentas passam a ser desenvolvidas e aplicadas por outras organizações, nacionais ou estrangeiras, para colaborar no mapeamento e denúncia de desmatamento da região, como é o caso do aplicativo da RainForest, que vem treinando indígenas da região amazônica, sobretudo no estado de Roraima. O treinamento e a construção conjunta das necessidades e do uso dos equipamentos junto às comunidades são aspectos fundamentais para o sucesso dos projetos: são as comunidades que conhecem as florestas, que as monitoram em tempo real e conseguem partilhar as necessidades específicas para a proteção da região. Para o uso de várias dessas ferramentas é necessário ainda romper mais algumas barreiras: a falta de acesso à internet, o aprendizado no uso das tecnologias, o olhar crítico sobre o que essas ferramentas podem oferecer e o entendimento de quais são os seus limites.

Assim, nesta pesquisa procuramos conversar com alguns projetos que trabalham e/ou trabalhavam com esses objetivos em comunidades indígenas brasileiras nas regiões da Amazônia Legal, Cerrado e Mata Atlântica. Nas nossas conversas coletivas, convidamos pessoas dos projetos Hermes, Mapa Guarani Digital, Alertas+, Baobáxia e Coolab, embora tenhamos tentado contato também com o Fuxico, não conseguimos estabelecer uma canal de comunicação com as pessoas que o mantém, e fizemos conversas individuais com o Proteja Amazônia.

O projeto Fuxico foi uma proposta desenvolvida por um grupo hacker feminista para oferecer rede de comunicação entre as comunidades através da tecnologia Mesh, baseada em uma ferramenta de código aberto chamada PirateBox, a qual adaptaram e utilizaram compondo sua própria filosofia7 no que diz respeito ao uso e licença do software. No mesmo sentido, os projetos Baobáxia, da Rede Mocambos, e Coolab, também usam ferramentas de código aberto para criar, adaptar e fornecer uma rede de comunicação em comunidades. Por outro lado, Hermes é uma tecnologia de hardware e software abertos para a conversão de sinais de rádio em sinais de internet, promovendo assim a possibilidade de conexão à internet com pouco recurso financeiro disponível, e adaptando as ferramentas que as comunidades já tinham em mãos.

Outros grupos e projetos, com perspectiva de atuação mais direta com comunidades no mapeamento, georreferenciamento, denúncias ou registros de desmatamentos e outros ataques, também foram consultados na pesquisa. São eles o Mapa Guarani Digital, desenvolvido pelo Conselho de Trabalho Indigenista (CTI)8; Alertas+, desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA)9;  e Projeta Amazônia10, desenvolvido pelo coletivo Proteja.

Nesse ensaio, me esforço em demonstrar (1) as relações entre comunidades de usuários e desenvolvedores de programas de código aberto e/ou programas livres de código aberto (free and open-source software – F/OSS); (2) a implementação e o impacto do que vamos chamar aqui de infraestruturas predatórias; e (3) os caminhos de fracasso e sucesso no desenvolvimento de infraestruturas digitais de código aberto que se propõem aliadas dos defensores das florestas. Para isso, os conceitos de código aberto, comunidades, infraestruturas digitais, e infraestruturas predatórias serão abordados, além de estudos de caso e excertos de conversas coletivas no formato de “rodas de conversa” realizadas com os grupos, ou de entrevistas individuais com mantenedores destes projetos.

 

Começa na internet

Era uma tarde ensolarada em Alter do Chão, um distrito do município de Santarém, no estado do Pará, Brasil, por onde passa o Rio Tapajós. Depois de passarmos a manhã conversando com defensores da terra e do território sobre os perigos que enfrentam, questionamos, naquele momento, o quão efetiva poderia ser a segurança digital para corpos ameaçados por armas de fogo. É um questionamento comum quando se trabalha com tecnologia e defensores da terra e do território, aspecto ao qual devemos sempre estar atentos e atentas como pessoas educadoras, já que a linha que separa a segurança da paranoia é tênue e presente.

Nesse esforço selvagem de nos desapegarmos de conhecimentos colonizados, buscamos várias metodologias de aprendizagem não opressoras e encontramos na escuta um processo essencial para o aprendizado, o “fazer com” como uma metodologia radical de aprendizagem libertadora (hooks, 1994). Radical porque se ampara primeiro no processo de desvelamento do mundo da opressão, comprometendo-se com a práxis, com a sua transformação; e segundo porque visa transformar a realidade opressora dos aprendizes em um processo de libertação. Com a atenção de que o processo de libertação não é estático, mas uma busca constante.

Há várias nomenclaturas possíveis para a metodologia de escuta e aprendizado – poderíamos falar em etnografia participante, sob um olhar antropológico, ou de contextual inquiry, com um amparo técnico-científico da pesquisa de mercado –, mas nos deteremos ao “fazer com” a partir de uma perspectiva pedagógica. Trata-se de uma combinação de métodos de pesquisa e de aprendizagem, e de construção de afetos entre as pessoas facilitadoras e participantes, um estudo que mistura a etnografia antropológica, a educação libertadora e a interseccionalidade feminista.

Definida a metodologia, nos debruçamos sobre os desafios: sair do campo do corpo e do território para entrar na área do digital ou das tecnologias e infraestruturas digitais. O digital parece intangível, intocável, enquanto o território é chão, é ponto de estabilidade. As abordagens nesse cenário podem ser tanto um olhar sobre a história dessas tecnologias, quanto construir junto os significados através de seu uso, do contexto das pessoas usuárias, do entendimento sobre essas ferramentas, e assim remover a separação entre o corpo, o território e o mundo digital. As histórias das pessoas com as tecnologias passam a ser a ferramenta para construir um processo de aprendizagem relacional, através da analogia.

Analogia, aqui, é constituída como uma forma de similitude – a semelhança que desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental (Foucault, 1995, p. 23). Na analogia superpõem-se dois conhecimentos:

  • Convenientia: são convenientes as coisas que aproximando-se umas das outras, se aparelham, é uma semelhança ligada ao espaço de uma forma gradativa (Foucault, 1995:25).
  • Aemulatio: a emulação não depende da aproximação, pode acontecer à distância, reproduz uma semelhança sem contato, um reflexo, embora não seja inerte, e por vezes podem até ser considerados rivais, já que se torna difícil determinar qual dessas duas coisas é a primeira, “qual deles trouxe ao outro sua similitude” (1995:27).

 

Já a analogia, esse “velho conceito”, conforme escreveu Foucault (1995, p.29), apresenta-se com o poder de utilizar as semelhanças sutis das relações para criar similitudes superpondo convenientia e aemulatio, e resultando em uma maneira de criar afeto, parentesco. A analogia é aspecto fundamental para o aprendizado das comunidades de usuários e das ferramentas utilizadas, como vamos observar ao longo desse ensaio.

Analogia

Naquela tarde, em Alter do Chão, começamos pelas histórias. A primeira pergunta para as participantes era uma maneira de explorar seu entendimento e uso da internet, assim como verificar a chegada de internet naquele território.

O que é a internet para você?

No grupo havia advogados, antropólogos, financiadores, líderes indígenas e até mesmo um padre. A relação com a internet era diferente para cada um deles: alguns nasceram e já havia internet em seu ambiente, outros acessaram pela primeira vez há pouco tempo, embora já tivessem idade avançada. Uns detestam, outros adoram. Alguns têm a sensação de constante vigilância dos aparatos tecnológicos, outros acham que é uma paranoia, que não existe nada disso. Para uns é um território em disputa, para outros a disputa já está perdida.

Neste grupo, a internet vai ser construída através dos significados proporcionados pelos participantes: é um meio de comunicação, é uma ferramenta que aproxima, mas é também uma ferramenta que afasta. A última pessoa a responder à pergunta é uma liderança indígena11, que declara:

A Internet é como o pajé. Ele é a nossa única defesa. Ele trata das doenças que os médicos não conseguem identificar, ele faz pajelanças, mesmo à distância, ele sabe de tudo o que está acontecendo. A internet é uma ferramenta que nós usamos para a comunicação, informação e para treinar as pessoas para a defesa de seus direitos, pessoas que estão sendo mortas porque lutam pela defesa de seu território, defesa de seus direitos.

Esta mulher indígena usa das suas relações, da sua história e cultura para estabelecer conexão com a ferramenta colocada: ela cria similitude através da analogia entre a internet e o pajé. Por meio dessa relação é criado um laço de parentesco que conecta o seu processo de aprendizado e as pessoas facilitadoras. A partir do seu entendimento do que é a internet, podemos enfim abordar: como a internet chega no território, quais são as implicações sociais, políticas, culturais e suas transformações a partir do uso dessa ferramenta e quais são os riscos em se utilizar determinadas infraestruturas digitais.

 

Computadores, internet e (des)esperança

Ao abordar os aspectos que permeiam a relação dos indivíduos e dos artefatos tecnológicos, sobretudo celulares e computadores, é necessário olhar brevemente para a história a fim de compreender a distribuição dessas tecnologias num contexto sociopolítico e geográfico. No Brasil, a distribuição da internet começa pelos estados costeiros e com maior presença de universidades públicas, e aos poucos chega aos interiores. Esse movimento também é acompanhado pela chegada dos dispositivos físicos de acesso (computadores, celulares, tablets escolares), e também da maneira de conectar-se, isto é, banda larga, fibra óptica, 2G a 5G, tudo varia geograficamente. Se em algumas cidades fala-se em 5G, em outras o assunto é a internet satelital. Essa chegada desigual faz com que a experimentação se dê de maneira desproporcional em cada comunidade. A internet chegou com certos riscos nos anos 1990 para uns, enquanto para outros chegou nos anos 2020 trazendo riscos muito mais devastadores. Para entender isso, vamos explorar brevemente a história da computação, das ferramentas e dos programas que surgiram acompanhando a internet. Há algumas controvérsias, mas a história que conhecemos dos computadores comercializáveis (e não das máquinas computacionais) remonta aos anos 1970; foi só no final daquela década que os computadores pessoais começaram a ser produzidos em um processo de fabricação em massa, sendo a década seguinte o momento que a comercialização passa a inserir o maquinário na vida cotidiana das famílias no Norte Global. As máquinas anteriores ao PC (personal computer) eram nomeadas como máquinas matemáticas ou calculadoras, usadas para criar códigos, comunicação codificada no comércio financeiro e nas relações de guerra. Esse período é por muitas vezes identificado como um processo reconhecidamente ligado às guerras. A tecnologia, nesse contexto, é abordada por alguns autores como uma cultura masculinizada: uma obsessão pelo controle das ferramentas, das técnicas e, sobretudo, dos corpos, amparada no conceito de cibernética de Wiener (1989), “o controle e a comunicação no animal e na máquina”.
To emphazise, as I do here, the ways in which the symbolic representation of technology is sharply gendered is not to deny that real differences do exist between women and men in relation to technology. Nor is it to imply that all men are technologically skilled or knowledgeable. Rather, as we shall see, it is the ideology of masculinity that has this intimate bond with technology. (Wajcman, 1991, p. 137)

Mas para além da relação com a guerra e com a masculinidade sustentada na ideia de controle, o desenvolvimento da internet também pelejou por um desejo de uma comunicação descentralizada e por uma distribuição de acesso e de conhecimento globalizado. Ainda nos anos 1980, enquanto alguns desenvolviam sistemas conhecidos como “proprietários” ou “fechados”, outros dedicaram seu tempo para imaginar futuros possíveis para essas tecnologias, criando sistemas com ideias de abertura ao acesso para todas pessoas, como é o caso de Richard Stallman, criador do GNU Project12, em 1983, da Free Software Foundation13 em 1985, e da licença GNU (general public license)14 em 1989, sendo esta a licença amplamente conhecida como copyleft.

Se nos Estados Unidos os pesquisadores trabalhavam para desenvolver sistemas paralelos e para imaginar uma internet livre (de mercado ou de política), no Brasil, foi só em 1988 que ela passou a existir como uma possibilidade, um esforço das universidades para iniciar a distribuição dessa nova maneira de se conectar – que só foi adentrar a casa das famílias brasileiras quase dez anos depois, em 1996. Já há muito pré-estabelecido quando a internet passa a conectar a população brasileira: o código proprietário e o código aberto, a licença copyright e a copyleft, os e-mails, sites de buscas e fóruns de discussão. Porém, é também quando os grupos antiglobalização ou altermundismo (como mencionado por Silvio Rhatto, em entrevista) surgem com a perspectiva de “um outro mundo possível”, principalmente como crítica ao movimento neoliberal global que estava em curso.

É nesse contexto que grupos de ativistas da internet (ciberativistas) passam a se formar, criar alternativas online e aderir às tecnologias como uma maneira de barrar o avanço neoliberal, amparados sobretudo numa lógica anticapitalista e antiglobalização. Embora bem sucedidos na tentativa de criar espaços na internet para expressar suas opiniões, hoje esse passado é visto com certo pessimismo15 por alguns:

Twenty years on and few remain in thrall to the revolutionary potential of the Internet that has been well and truly captured by capitalism. The tech giants dominate our digital lives – Facebook, Alphabet (the parent company of Google), Amazon, Microsoft and Apple together have a combined annual revenue larger than the gross domestic product (GDP) of 90% of the world’s countries (Lawrence and Laybourn-Langton, 2019). Apple is the first trillion-dollar company in history. Jeff Bezos, the founder and owner of Amazon, is the richest person in history, with his net wealth increasing by US$400 million a day in 2018. These corporations form the largest oligopolies the world has ever seen. They are resistant to traditional forms of regulation and are largely out of reach of democratically organised political will-formation. (Fenton, 2020, p. 1055)
A popularização da internet chegou como um aspecto emergencial, sem consulta pública, e sem imaginar possíveis necessidades no que concerne aos aparatos legais e de impacto de acesso à informação. Outro aspecto importante foi a falta de discernimento sobre o que é o software, quais as diferenças entre ser um código aberto ou proprietário, quais as implicações nas políticas de privacidade das ferramentas, e quais são os dados que os donos dessas ferramentas poderiam ter de seus usuários.

As comunidades de software aberto

As comunidades de código aberto crescem exponencialmente nos anos 2000, e nessas comunidades os códigos dos programas são disponibilizados livremente para qualquer pessoa ver, modificar e distribuir (Sharman et al, 2002), através da licença escolhida pelos autores das ferramentas. A disponibilidade do acesso ao código está diretamente ligada à possibilidade de que os usuários poderiam cuidar da segurança e da privacidade de seus dados, assim como validar se o que a ferramenta se propõe a fazer está sendo executado de maneira correta. O crescimento das comunidades de código aberto está diretamente ligado à expansão do acesso à internet globalmente, gerando mais necessidade e produção de artefatos tecnológicos.

Neste texto, comunidade tem a ver com o sentir-se parte de algo, algo que produz uma sensação boa por causa de si mesma: é a segurança em meio à hostilidade (Bauman, 2003). Toda comunidade tem um código: ele pode ser uma maneira de se falar, os acordos entre os pares, ou até mesmo os interesses em comum. É como assistir uma performance artística ou ver uma garrafa de água em uma exposição de arte: é preciso conhecer os signos para perceber a mensagem que se transmite. Nas comunidades de software aberto não é diferente.

Enquanto os movimentos ativistas passavam a usar a tecnologia como uma maneira de amplificar suas vozes, eles também enfrentavam a necessidade de dominar a tecnologia e suas ferramentas. Silvio Rhatto conta em entrevista que sua experiência como desenvolvedor acontece nesse cenário: com um ponto de partida aprender a usar e desenvolver as ferramentas na lógica “faça-você-mesmo”, e criar ferramentas sob demanda. É também nesse momento que os movimentos passam a fortalecer parte de seus membros através do aprendizado dessas tecnologias.

Open source has always served as a vanguard for the rest of our online behavior. In the late 1990s, open source was the poster child for a hopeful vision of widespread public collaboration, then dubbed “peer production”. Because open source software was starting to outpace software sold by companies, economists believed that these developers had achieved the unthinkable. As the internet floated peacefully in its embryonic state, it really did seem possible that the world might eventually be powered by the efforts of self-organized communities. (Eghbal, 2020, p. 15).

À medida que as comunidades de código aberto vão surgindo, desaparecendo ou crescendo, seus modelos de existência também variam – embora a regra de acessar, modificar e distribuir o código continue válida. Os grupos do programa de código aberto podem ser abertos ou fechados, ter autoridades e tomadores de decisão, ou tomar as decisões apenas em consenso.

The term “open source” refers only to how code is distributed and consumed. It says nothing about how code is produced. “Open source” projects have nothing more in common with one another than “companies” do. All companies, by definition, produce something of value that is exchanged for money, but we don’t assume that every company has the same business model. (Eghbal, 2020, p. 44)

Isso também quer dizer que cada comunidade existe à sua maneira. Uma percepção comum desse período é que as comunidades de desenvolvedores eram pertencentes a um gênero e raça específicos: tratavam-se de homens brancos. Essa constatação levou a uma consequente discussão sobre diversidade na tecnologia, com o surgimento de vários grupos16 buscando promover a inserção de mais mulheres e a discussão do enviesamento (bias) no desenvolvimento tecnológico.

Assim sendo, a característica maior do código aberto e de suas comunidades: disponibilidade de acesso não necessariamente significa acessibilidade.

Open source is complicated because it contains a messy mix of both technical and social norms, most of which play out in public. It is documented extensively (nearly every decision is written down somewhere) but not clearly (you have to dig through years of mailing list archives to find what you need). Its treasures are hidden amidst a tangle of brambles and thorns.

Social norms are passed down through trial and error, which means that getting something wrong runs the risk of embarrassment and mockery in front of one’s peers. Developers don’t contribute to open source of lack of technical ability, but rather due to fear of committing a faux pas. (Eghbal, 2020, p. 43)

Quanto uma pessoa pode acessar o repositório ou a documentação de um programa de código aberto se ela não conhecer os signos ou os códigos por meio dos quais os desenvolvedores se comunicam? O que nos leva à seguinte questão: para quem é o programa produzido? Para quem é o código aberto?

Infraestruturas Digitais

O predatório

In 2004, Facebook was fun; in 2006, addictive.

Já em 2000, as redes sociais criaram um novo ambiente para produção, reprodução e compartilhamento de informações que perdura até o momento atual. A empresa Meta vinha dominando há anos esse cenário, refletido nas denúncias contra a manipulação das eleições presidenciais dos Estados Unidos de 201417 com o uso da ferramenta Facebook, na disseminação de notícias falsas no Brasil através da ferramenta Whatsapp, também durante as eleições presidenciais do país em 201818, ou na venda de produtos e produção de influencers através do Instagram. Em comum, além de pertencerem à Meta, essas ferramentas promovem uma rápida troca de informações entre usuários, sem a necessidade de checagem de fatos e utilizando conhecidas técnicas de gamificação: a recompensa entre os usuários através de curtidas, comentários ou reações; ou financeiramente, através de contratos, e aumento de relevância, com o uso algoritmos pagos nas plataformas.

Além de serem “recompensas”, os comentários e curtidas também são consideradas como social proof (Hilverda et al, 2018). Social proof é um fenômeno social e psicológico que demonstra que indivíduos tendem a imitar opiniões e ações de outras pessoas, particularmente se forem pessoas que admiram ou pela qual se tem algum afeto. Essa técnica é conhecida no mercado e utilizada para criar estratégias para engajar mais usuários nas plataformas. As tecnologias de informação, em geral, utilizam várias técnicas psicossociais para estabelecer padrões de engajamento de usuários, conquistar uma base de dados significativa e crescer nas redes. Essas técnicas podem ser: explorar a inteligência emocional, recompensar usuários, atraí-los através da cultura pop (como as propagandas com celebridades do público alvo), ou o uso de social proof.

Recompensar usuários também é um aspecto da gamificação. Vamos usar o conceito proposta por Deterding (2011) para definir gamificação como “o uso de elementos de jogos em contextos de não-jogos”. É o caso do jogo Free Fire, que lançado em 2017, conquistou uma base de dados considerável no Brasil (2021, Macedo et al) e em outros países do Sul Global. Seu crescimento significativo nessas regiões tem uma explicação simples: (1) é um jogo gratuito, (2) que funciona em quaisquer dispositivos, inclusive em celulares smartphones mais simples ou antigos. O Brasil rapidamente se tornou uma das suas principais comunidades, e o jogo usou celebridades pop para atrair e reter usuários: a cantora Anitta19 e o dj Alok20 participaram de eventos para a plataforma.

A agregação do jogo Free Fire por jovens no Brasil não aconteceu apenas em áreas urbanas, mas também em áreas rurais, com indígenas compondo parte da base de dados de usuários, tendo uma competição exclusiva para eles em 2020, a Copa das Aldeias21. Se por um lado, o jogo é considerado inclusivo – pela facilidade de acesso tanto no valor como no dispositivo –, por outro, é considerado nocivo – também pela facilidade à adicção –, podendo causar danos físicos, emocionais e financeiros aos usuários. Há muitos estudos que abordam o vício em ferramentas e jogos considerando idade, exposição às tecnologias, nível escolar e acesso. Mas não trataremos disso aqui. Nosso objetivo é explorar a adicção a certas tecnologias em comunidades indígenas, e o desenvolvimento de tecnologias não invasivas ou predatórias para essas mesmas comunidades.

Durante visita a uma aldeia Guarani, no sul do Brasil, os jovens da região comentaram sobre sua experiência com certas plataformas digitais com as quais interagiam, particularmente o Facebook e o Free Fire. Ambas foram identificadas como nocivas, viciantes e causadoras de um impacto ruim em suas vidas cotidianas. Uma jovem contou como o jogo a fez gastar uma quantia considerável de dinheiro, com a esperança de alcançar um patamar melhor na disputa22. Outros comentaram como a rede social da empresa Meta tomava o seu tempo e atenção, os distraindo das suas obrigações e convivência cultural na aldeia. Sob essa perspectiva, essas tecnologias digitais, com código fechado, centradas na experiência do consumo, vão ser tratadas aqui como infraestruturas predatórias.

Mas os não-humanos também capturam humanos, seduzindo-os e/ou predando-os, para transformá-los igualmente em membros de sua comunidade. A predação está, assim, intimamente associada ao desejo cósmico de produzir o parentesco. (Fausto, 2002, p. 14)

As infraestruturas predatórias, são artefatos sociais não humanos, que embora não tenham agência, pois a tecnologia não é boa, nem ruim (Alter, 2017), são produzidas por outros humanos com a intenção de capturar sua atenção na plataforma. Para fazer isso, utilizam de várias ferramentas e inúmeros testes – por vezes conhecidos como “provas de usabilidade” – em que identificam quais são as cores, desenhos, formatos, textos que mais atraem as pessoas, e a partir disso conseguem construir uma ferramenta sedutora, pronta para a predação. Não existe uma intenção empática por detrás disso, o mercado de produção de infraestruturas digitais quer consumidores (usuários) e seus dados, quanto mais dados, melhor.

“Se é grátis, você é o produto”23.

Eis a questão: a antropofagia é necessariamente uma prática canibal ou pode-se comer humanos como se fossem mera comida? Se, como vimos, há momentos em que certos animais são consumidos como inimigos (isto é, na sua condição de pessoa), é-nos legítimo perguntar se não há momentos em que os humanos são consumidos como simples comida (isto é, como objeto-inerte, suporte de outras relações). (Fausto, 2002, p. 27)

Embora existam ferramentas em que os humanos são distinguidos apenas como bits a serem consumidos pela ferramenta – deixando de conter sua identidade, seu ethos e sua própria existência e tornando-se alimento da ferramenta; por outro lado, há tecnologias que são criadas como um apoio a esses mesmos humanos, e que ao não disporem das mesmas ferramentas sedutoras do mercado, enfrentam desafios em relação à formação de comunidade e aderência de sua proposta.

O presente

(…) nós, Yanomami, nunca guardamos os objetos que fabricamos ou que recebemos, mesmo que nos façam falta depois. Damos logo a quem os pede, e, assim, eles se afastam depressa de nós e vão passando de mão em mão sem parar, até longe. Por isso não temos realmente bens próprios. Quando conseguimos um facão novo dos brancos, logo depois o entregamos a algum convidado que o deseja numa festa de reahu. Então dizemos a ele: “Sou um habitante da floresta, não quero ter muitas mercadorias como um branco! Tome esta velha peça de metal que nos vem de Omama. Já a usei o suficiente! Não vou negá-lo a você! Leve-a consigo! Vai poder abrir uma roça nova com ela! E depois irá dá-la a outra pessoa! Então, fale de mim para quem ficar com ela e seus parentes. Quero que tenham amizade por mim longe de minha casa! Mais tarde, será minha vez de lhe pedir algo!”. Depois, o convidado, uma vez de volta entre os seus, não vai mais demorar para dar o mesmo facão a outro visitante. E assim, de mão em mão, ele vai acabar chegando até desconhecidos numa floresta distante. (A queda do céu, Davi Kopenawa, 2015, p. 412).

Presente é uma ação que é universal, até mesmo os líderes de nações levam presentes. É esse o sentido do Tapiri (…) a ideia não é enganar, é fazer uma relação. Se ele (o indígena) vai e pega o presente, tá mais ou menos aceitando. Se ele pega e deixa um presente, tanto melhor, há uma relação boa. E tem o que pega e quebra o tapiri, esse é o melhor, esse é o que eu gosto. (Sidney Possuelo, em palestra, 21 de abril de 2022)

Em A queda do céu (2015), Davi Kopenawa fala sobre o caminho do presente, que de mão em mão vai para longe, se tornando um objeto que gera afeição por onde passa, e algo que pode ser retribuído no futuro. Por outro lado, Sidney Possuelo, indigenista da Fundação Nacional do Índio, comentou sobre o presente como uma ação para gerar proximidade, para se construir relação com o outro, e especificamente no contexto de indígenas isolados: há aqueles que podem aceitar o presente, os que aceitam e retribuem, os que não aceitam e os que não só não aceitam, como também quebram o presente, mostrando que não há desejo na proposta de relação.

O caminho do presente que quero propor aqui é algo similar: os presentes são dados a alguém ou a alguma comunidade para construir relações, e podem resultar em trocas entre as pessoas envolvidas, ou no próprio corte de relação. Dessa maneira, os programas de código aberto que abordamos podem ser vislumbrados como presentes: objetos virtuais (criados por um desenvolvedor ou por um grupo de pessoas) que são oferecidos aos usuários (as comunidades indígenas). Não há um pedido explícito de troca, mas há um mínimo esperado, o uso dessas ferramentas, uma reciprocidade sem a qual não poderá haver relação, sem a qual a infraestrutura digital não existirá.

Alguns grupos como o Coletivo Proteja, desenvolvedores do aplicativo Proteja Amazônia, criaram o aplicativo e foram às comunidades de usuários verificar se esse produto seria utilizado, se havia sentido nele. Assim, confere-se a possibilidade de verificar se vai haver aderência a essa tecnologia ou não, e executar as mudanças conforme as necessidades da comunidade.

Os programas que pesquisamos neste estudo partem de uma premissa do acesso à tecnologia, da distribuição entre as comunidades e do ativismo para a proteção das florestas e das próprias comunidades. Eles são desenvolvidos e distribuídos como  programas de software livre (f/oss) e/ou programas de código aberto, embora já tenhamos entendido que acessar o produto não necessariamente significa acessibilidade. Existe também uma controvérsia no desenvolvimento: há programas que são adaptações, possíveis dentro do ecossistema do software livre, mas que se os mantenedores deixam de suportar o código base, o próprio programa deixará de existir. Há também programas que estão desatualizados há muito tempo, e há outros que disponibilizam o código para quem quiser usar, adaptar e recriar, mas que não deixam em nenhuma plataforma aberta à qualquer desenvolvedor, como o Github.24.

Dentre os projetos que desenvolvem programas de código aberto, nem todos tem manutenção atualizada e/ou disponível, conforme tabela abaixo:

Name

Open Source

Available

Starting date

Last update

Link to project

Proteja Amazônia

Yes

No

2018

N/A

No (25)

Hermes - Rizhomatica

Yes

Yes

2012

August 26 2022

Alertas +

Yes

Yes

2021

January 6 2022

Mapa Guarani Digital

Yes

Yes

2016

July 23 2019

Baobáxia

Yes

Yes

N/A

January 13 2019

Coolab

Yes

Yes

N/A

February 25 2022

Última verificação em setembro de 2022.

Infraestruturas digitais

Os projetos que têm por objetivo a criação de redes de comunicação entre as comunidades, –  ainda  que não estejam necessariamente conectadas à internet – visam uma promoção de acesso à produção cultural local e criam versões modificadas de determinadas infraestruturas digitais livres de código aberto. Um exemplo é o Nhandeflix, uma plataforma desenvolvida com as comunidades Guarani e apoiada pelas organizações Intervozes e Coolab para disponibilizar conteúdos das próprias comunidades, incentivando não apenas a troca entre elas, mas também gerando autonomia sobre os modos de acessar e produzir conteúdos na internet.

Em cada aldeia instalamos uma intranet que pode ser acessada via wifi e fora da internet, onde conteúdos do Nhandereko guarani ficam à disposição sendo gerenciados pela comunidade. O Nhandeflix já está fazendo sucesso na intranet das aldeias e tanto ele, como a restrição horária pode ser modificado em cada aldeia de maneira remota, detalhe importante considerando que são mais de 20 aldeias distribuídas em uma área que vai do município de São Paulo até o litoral. (texto do Intervozes e Comitê Interaldeias, recebido por mensagem pessoal, em 30 de julho de 2022).

Dentre os projetos que atuam ativamente na construção de redes locais de internet nas comunidades indígenas ou ribeirinhas, há um destaque entre os programas de código aberto que são usados para construir essas redes. Programas que aqui podemos determinar como infraestruturas radicais para a existência e promoção do acesso e produção locais de conteúdos de internet entre comunidades. São eles os programas LibreMesh e Openwrt.

A possibilidade de manutenção para sustentar o software livre é um destaque vital que apareceu nas rodas de conversas dessa pesquisa: é necessário financiamento para manutenção, mas é sobretudo necessário uma construção de comunidades – entre usuários, desenvolvedores e financiadores – para que a sustentabilidade do projeto seja possível.

Project

Link

Latest update

LibreMesh

April 23 2022.

Openwrt

September 9 2022.

Piratebox

Official site informs the project’s closing date in 2019.

Última verificação em setembro de 2022.

Infraestruturas digitais

Na lista acima disponibilizamos o link para os repositórios dos softwares utilizados como infraestruturas radicais para a produção de conteúdo nas comunidades e suas últimas atualizações. Até a finalização deste texto, adicionalmente localizamos também o Piratebox, programa utilizado pelo Coletivo Marialab para a produção do programa Fuxico26, para destacar que quando um software deixa de ser mantido, vários outros podem deixar de existir junto com ele.

O desenvolvedor

Não há fórmula para resposta; de forma mais precisa, responder não é apenas reagir com um cálculo fixo apropriado para as máquinas, a lógica e – a maior parte da filosofia ocidental insistiu – os animais.

Durante essa pesquisa, fizemos conversas individuais e coletivas com desenvolvedores e mantenedores dos projetos acima, em que pudemos identificar características e desafios similares, promovendo trocas entre grupos e vislumbrando possibilidades para alianças. Conforme entrevista com Silvio Rhatto, os projetos podem ser desenvolvidos através de uma equipe que seja parte da organização, como é o caso do Alertas+, ou de terceirizados, que não têm ligação direta com a organização, como é o caso do Mapa Guarani Digital. Há ainda uma terceira possibilidade: desenvolvedores que tiveram contato direto com a comunidade e decidiram atender suas demandas, como o é o caso do Proteja Amazônia e do Hermes.

Cada uma dessas situações traz desafios particulares, especialmente porque nenhuma delas garante o estabelecimento de uma comunidade de desenvolvedores – algo que, de acordo com Silvio Rhatto, só acontece com grandes infraestruturas digitais, como o Kernel do Linux. Um desafio comum entre os que contratam serviços terceirizados é a escassez de financiamento para a manutenção do software, especialmente se o mantenedor é uma organização de trabalho no território, isto é, não é uma organização especializada em desenvolvimento de tecnologias.

A escassez de financiamento parece ser um problema generalizado entre os mantenedores de projetos, tanto para garantir seu surgimento, geralmente em disputa com as tecnologias predatórias, quanto sua existência.

Foi em julho de 2017. Ficamos lá dez dias, íamos ficar catorze. Mas nesse momento, esse momento foi muito importante para nós, porque foi o primeiro passo dessa relação de confiança com eles, a gente ficou dois dias em reunião com eles, não poderíamos nem sair do quarto que deram pra gente, antes de ter a aprovação de toda a aldeia de que poderíamos circular na aldeia e também conversar com as lideranças para testar o aplicativo, a nossa ideia é que eles pudessem ver a interface, ver se saberiam usar de uma forma intuitiva, era mais um teste de usabilidade. (Rodolfo Avelino, desenvolvedor do Proteja Amazônia, em entrevista em 2021).

O financiamento não apenas fornece recursos financeiros para os desenvolvedores, mas possibilita viajar até as comunidades, apresentar e testar a ferramenta desenvolvida (custo que costuma ser alto na região amazônica): etapas fundamentais para descobrir as necessidades relativas ao desenvolvimento.

E o retorno… A gente pegou, instalou o aplicativo nos celulares das lideranças e aí o que a gente percebeu é que tudo que a gente tinha pensado que era ideal pra eles não funcionava, eles não conseguiam navegar. E aí eles falaram: ah, a melhor coisa é o Whatsapp, todo mundo mexe com Whatsapp aqui, então se for a cara do Whatsapp, vai funcionar. E aí a gente mudou, o que era cinco telas do aplicativo, se tornou só uma. (Rodolfo Avelino, em entrevista em 2021)

Por outro lado, se o desenvolvimento parte da organização, é ainda um desafio comunicar a necessidade de conhecer e apresentar as ferramentas aos usuários. Silvio comenta27 que em dez anos trabalhando na organização com desenvolvimento de produtos, sequer uma única vez teve a oportunidade de entrar em contato com as comunidades para as quais desenvolvia o produto. Algo que foi também fundamental durante o desenvolvimento do Mapa Guarani Digital, que embora não tenha tido aderência tecnológica dos usuários, teve aderência de conteúdo. O Mapa Guarani Digital é uma ferramenta que oferece a possibilidade de registrar regiões indígenas demarcadas, em processo de retomada, ou antigas regiões, através da inserção de coordenadas. Sem a aderência às ferramentas, seus usuários escrevem as coordenadas em papel, inserem os dados necessários para o registro na ferramenta, e repassam aos coordenadores e mantenedores do projeto, que ficam responsáveis por alimentar a plataforma.

Construindo parentesco

Longe de nossa floresta, há muitos outros povos além de nós. Contudo, nenhum deles tem um nome semelhante ao nosso. Por isso devemos continuar vivendo na terra que Omama nos deixou no primeiro tempo. Somos seus filhos e genros. Mantemos o nome que nos deu. Desde que nos encontraram, os brancos não param de nos perguntar: "Quem são vocês? De onde vêm? Como se chamam?" Querem saber o que nosso nome, Yanomami, significa. Por que tamanha insistência? Alegam que é pra pensar direito.

Percebemos que criar relações está no centro de um projeto de software livre que quer perdurar: seja para ter uma comunidade de usuários, de desenvolvedores, ou para gerir financiamento para sua sustentabilidade a longo prazo, garantindo sua manutenção. Mas ainda assim, todas essas palavras grafadas em negrito apresentam desafios aos envolvidos.

Para começar, a relação se estabelece através da troca de presentes, ou de nomes ou de outros artefatos possíveis. Mas a troca, como já percebemos, depende de uma afinidade entre os atores. Nos cenários dos programas que se propõem como aliados dos guardiões das florestas, geralmente essa relação não é inventada, mas estabelecida através de uma rede de relações entre outros pares, e muitas vezes a partir da apresentação de um problema a ser enfrentado, como é o caso do surgimento do projeto Hermes28:

O Hermes surgiu há mais de uma década (…). A gente conversava muito com o professor Mauro Almeida, do IFCH, e ele participou da criação da reserva extrativista do alto do Juruá. E nesse projeto que eles tinham com os extrativistas eles sempre conversavam que um dos problemas que eles tinham era a comunicação. E naquele caso dos extrativistas eles fizeram uma carta com as demandas que eles tinham, e uma demanda que o Mauro Almeida disse que eles tinham era o rádio, radiofonia, comunicação. (Rafael Diniz, citação cedida em conversa particular)

Essa história se repete com os projetos que conversamos: todos partem de uma necessidade específica da comunidade. No caso dos Guarani que visitamos, por exemplo, embora certas tecnologias tenham sido adotadas a partir de uma ideia de inclusão (dos jovens aos jogos tecnológicos), aos poucos foram percebidas como nocivas ao provocar o afastamento (dos jovens) às atividades em comunidade, como é o caso do jogo Free Fire. Outras, como mensageiros instantâneos ou redes sociais, se por um lado podem ser vistas como adictivas, por outro permitiram que as aldeias entrassem em contato umas com as outras e trocassem cânticos entre si, já esquecidos por alguns, como uma maneira de resgatar uma memória apagada pelo distanciamento geográfico entre eles. Assim, essas mesmas tecnologias puderam ser reimaginadas e outras puderam construídas através de alianças entre os projetos e as comunidades, como é o caso do Nhandeflix:

Tekoa é a palavra guarani para aldeia, teko significa modo de vida e tekoa o lugar do modo de vida. A internet é uma ferramenta que facilita a comunicação entre as aldeias e ajuda a incidência política no mundo não indígena, mas é também uma ferramenta por onde o mundo não indígena vai desestruturando o Nhandereko, palavra que se refere ao modo de vida guarani. Com mecanismos de captura de atenção ininterruptos e dispositivos que restringem as conexões humanas a meras interações descorporificadas. A internet tem um impacto brutal na vida de todos nós e sobretudo para quem vive em comunidade. A captura da atenção para um lugar fora da tekoa desmantela o teko, corroendo as relações comunitárias. Os guarani rapidamente entenderam que precisam construir uma relação com a internet na qual ela não se transforme no lugar onde se passa a maior parte do tempo, coisa que os não indígenas ainda não entenderam ou não levam a sério. Comitê Interaldeias, organização regional do povo guarani, junto ao Intervozes e CooLab estão desenvolvendo ferramentas para ajudar na construção dessa autonomia tecnológica. (Texto do Intervozes e Comitê Interaldeias, recebido por mensagem pessoal, em 30 de julho de 2022).

Se há relação e comunidade entre os desenvolvedores e usuários, o desafio seguinte perpassa os aspectos práticos do terceiro setor, sobretudo o financiamento, para gerar dois estados de vida que podem ser pontos de bloqueio para muitos projetos: a manutenção e a sustentabilidade. O financiamento é um aspecto primordial para que os programas não precisem usar os dados dos usuários como moeda de troca: tornar o usuário um produto. É através do financiamento que o programa continua sendo apenas um programa – um meio de acesso à informação, um meio de produção de conteúdo ou um meio de produção de denúncia.

É também uma forma de posicionar os financiadores no compromisso com a mudança social e a proteção das florestas: como é possível que os financiadores promovam a manutenção e sustentabilidade de programas que são fundamentais para as comunidades já tão afetadas pelas relações de atravessamentos tecnológicos? Quais as responsabilidades das fundações de filantropia na manutenção das desigualdades tecnológicas, ou sobretudo, quais as responsabilidades delas para o desmantelamento das desigualdades?

Ao invés de encerrar essas questões afirmando que é necessário atribuir mais financiamento para essas comunidades (de usuários e de desenvolvedores) essa pesquisa apenas abre um problema ainda maior: como estabelecer relações longínquas entre esses três atores (financiadores, desenvolvedores/organizações, comunidades) de maneira que conjuntamente possam atuar na manutenção de seus desejos pela proteção das florestas, contra a crise climática? 

Como diria Haraway “nossa dívida está apenas se abrindo para a reconstrução especulativa do mundo e assim para mundos possíveis, materiais, afetivos, práticos na situação detalhada e concreta do aqui, nessa tradição de pesquisa, não em toda parte e o tempo todo” (Haraway, 2011, p. 59), assim uma aliança mais profunda e especulativa precisa ser criada, através de uma escuta profunda dos desafios entre as comunidades das florestas e das infraestruturas digitais. 

Notas

1. https://www1.folha.uol.com.br/inter-nacional/en/scienceandhealth/20-20/10/fire-and-strong-winds-create-sandstorm-in-the-pantanal.shtml. Accessed on November 18 2022. (Back.)

2. https://insideclimatenews.org/news/30-092022/brazil-pantanal-wetland-wildfire-propoganda-bolsonaro/. Accessed on November 18 2022. (Back.)

3. https://www.nytimes.com/2021/11/19/wo-rld/americas/brazil-amazon-deforestation.html. Accessed on November 18 2022. (Back.)

4. One such project is the coalition between Greenpeace, Hivos and Cuica: “Todos os olhos na Amazônia”: https://todoslosojosenlaamazonia.org/p-t/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

5. https://www.rainforest-rescue.org/updates/10177/un-report-indigenous-people-are-the-best-forest-guardians. Accessed on November 8 2022. (Back.)

6. https://cimi.org.br/2022/08/relatoriovi-olencia2021/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

7. https://www.marialab.org/fuxico/. Acesso em 27 out 2022. (Back.)

8. https://trabalhoindigenista.org.br/home/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

9. https://www.socioambiental.org/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

10. https://www.protejaamazonia.org/. Accessed on September 9 2022. The website seems to have been hacked on September 9 2022.(Back.)

11. We chose to preserve the anonymity of some of the indigenous leaders who are in a situation of risk. (Back.)

12. https://www.gnu.org/home.en.html. Accessed on September 9 2022. (Back.)

13. https://www.fsf.org/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

14. https://www.gnu.org/licenses/gpl-3.0.en.html. Accessed on September 9 2022. (Back.)

15. In the essay Technology, Communication and Power (on this site), Bruno Rigonato Mundim approaches the idea of pessimism. (Back.)

16. An example is the group Tech Back the Tech, created in 2006: https://takebackthetech.net/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

17. https://www.nytimes.com/2018/03/17/u-s/politics/cambridge-analytica-trump-campaign.html. Accessed on September 8 2022. (Back.)

18. https://www.theguardian.com/world/2-018/oct/10/brazil-fake-news-presidential-election-whatsapp-facebook. Accessed on September 8 2022. (Back.)

19. (Portuguese) https://www.cnnbrasil.com.br/entre-tenimento/anitta-chega-ao-free-fire-intencao-e-promover-mulheres-nos-jogos-on-line/. Accessed on September 8 2022. (Back.)

20. (Portuguese) https://www.uol.com.br/start/ultimas-noticias/2020/05/02/free-fire-alok-faz-apresentacao-especial-dentro-do-jogo.htm. Accessed on September 8 2022. (Back.)

21. (Portuguese) https://tecnoblog.net/especiais/free-fire-nas-aldeias-como-um-torneio-inclui-indigenas-no-cenario-gamer/. Accessed on September 8 2022. (Back.)

22. Márcia Nóbrega and Luciana Ferreira wrote about this at: From the anthropophagization of code to narrative hacking: how to weave communities?, in this site. (Back.)

23. https://techhq.com/2018/04/facebook-if-something-is-free-you-are-the-product/. Accessed on September 8 2022. (Back.)

24. https://github.com/. (Back.)

25. According to interview with developer Rodolfo Avelino, Proteja Amazônia is not available in a public repository because the code is not yet ready, but it is made available to groups they know and who would like to replicate or adapt the code. (Back.)

26. https://www.marialab.org/fuxico/. Accessed on September 9 2022. (Back.)

27. See the interview on this site: Free software, Sustainability and Social Movements. (Back.)

28. Read more about HERMES in Bruno Mundim’s article Technology, communication and power, on this site. (Back.)

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